as janelas do 14ème ou “visions of johanna”

Dylan me convidou para fumar um cigarro na sacada, ver as janelas notívagas da cidade, falar dos amores desiludidos, de harmônicas em Dó, or whatelse. A torre e seu farol se apagaram. Restaram as lâmpadas de mercúrio e sódio a espalhar a luminosidade pela umidade do ar. O inverno vai chegar em breve, sinto frio nas pernas, sinto um impulso incontrolável de caminhar, seguir, sumir. “Dylan, você está vendo aqueles casais, um a um, a chegar trôpegos pela pequena alameda?”. Eles param no caminho para beijarem-se, tateando o caminho de casa com o que lhes resta de sobriedade. As janelas, antes apagadas, alumiam-se. Ele apenas sorri e continua – não responde. O último casal que passou está no prédio em frente; ela tira a roupa e veste a camisa preta dele, ajeita os travesseiros na cama perto da janela, diminui a luz, joga-o na cama e… “Deixe os casais ao que lhes interessa, deixe a magia acontecer sem testemunhas. Não veja, só enxergue.”, disse. Outros amigos vão descendo a rua, a celebrar as garrafas esvaziadas, o gosto de tabaco, as mãos geladas, e vão adentrando as casas vizinhas. Duas mulheres caminham rápido – será o frio ou só a maquina desejante da sexta-feira? Está chegando a hora de partir. As malas estão abertas, os livros estão guardados, as fotos no meio dos livros, os discos entre as roupas, o violão em espera. Estou de frente para uma nova-velha vida que chega, listas de coisas a fazer, o cínico exercício acadêmico, os olhos em vigília para rever o afeto pelo qual continuo perdido,  e vinte e cinco novas canções (ou mais) em um caderno. Algumas janelas azulejam-se pelos ecrãs que vencem a solidão, algumas apagam-se, outras apenas deixam a parca luz banhar o sofá, a cadeira, os corpos, o sabe-lá-o-que. “Vá. Feche as malas e vá”, me disse com os olhos distraídos em alguma copa de árvore que anunciava o vento. Olho a cidade a qual pertenço e não pertenço. “Vá”. A chuva no rosto à margem do rio, o último trem para casa, o amargo do café pela tarde, a torre cintilando tantas centenas e singulares vezes, a garrafa de alguma coisa alcólica afundada na ponte, essa multidão de turistas, o cheiro de pão às 17hs, Nina Simone, eu e meus velhos amigos vendo o dia nascer no 9ème a falar de tudo o que não importa às ciências humanas, mas importa ao humano. “Vá agora”. Lá, em volta de algumas garrafas e boa comida, aprendemos muito com Cat Power e Skip James. Verti um rio por aí, sozinho pelas ruas, com livros e dúvidas embaixo do braço, buscando alívio da saudade no vento que a bicicleta fabrica. “O segundo cigarro está acabando, Dylan. Está na hora de ir. Pare de cantar. Vamos fechar as malas e sumir daqui”.

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muitas são as burkas

Eu entrevia a face oculta daqueles rostos em silêncio
os olhos de assombro das mulheres feridas
os homens e sua costumaz fome

Sei o cheiro da podridão dos povos civilizados
e a verité cachée da jovem protestante
que deseja o tunisiano do banco da frente
mais do que a si mesma

Muitas são as burkas na linha 11

(Enquanto faço uma breve estatística
decepcionante
da constelação de iPhones
e absência de sorrisos
me lembro que Mr. Tambourine Man tem o tempo exato do consumo de um cigarro
falem o que for, mas com três acordes Dylan fazia boas contas)

Deixei um pouco de mim por cada abraço dos amigos
perdi alguns anos de vida em volta das mesas
e não lembro em qual reflexo fiquei
enquanto passava de bicicleta atordoado por uma boa citação
para uma tese que será lida por 5 pessoas

O que vim fazer aqui?
Afinal, todos estão se esforçando enormemente
para merecer o novo Renault
para ter a cara pálida da nova estrela da Dior
e alguns trocados para uma demi-orgie em Budapest
nem que isso custe trabalhar o dobro e comer a metade

Estão todos fingindo entender
porque aquele artista
pendurou um romeno banhado em piche nas torres do Hotel de Ville
ao som de Debussy

Todos comportados
Imersos nas cores da estação
Já terminaram o best-seller indicado pela crítica
Porque então ninguém está feliz?

O problema são os turistas
Os imigrantes
Os democratas, os socialistas
Ou alguma crise inventada
Dos 25, dos 40 ou da bolsa de Nova York

Eu vi 15 séculos de história
Congelados, bem documentados
Vi gente brigando sozinha pelas esteiras rolantes
Vi gente rolando pela dor alheia
E os cafés lotados de mileuristas às 16hs

Mas nada me fez chorar mais
Do que a harmônica em Dó no fim daquela canção.

Outono encore

A primeira chuva do outono
É como um nascimento
Uma janela para cidade cinza
O calor dos amigos
Algum tabaco, alguma coisa para beber
O corpo cansado
A tarde cansada

Lá, depois do temperado céu de agosto
Sacré-couer observa os corações partidos
As águas escorrem sobre os vãos de dignidade e concreto
Ou o que sobrou da noite anterior

Tudo volta ao normal
Os rostos graves, a mão trêmula
O olhar perdido de alguém no reflexo do vidro
Um cheiro particular na plataforma do trem

Voa um pássaro sem nome
Cai uma gota sem peso
Nasce uma estação

canção

sim, há uma geografia
e há uma Terra
– eu até que as amo –
sim, há o país e o trabalho inevitável

mas a canção é a mágica
é o que habita debaixo dos pés
é a tempestade tácita
trazendo o estrondo das marés
e um assovio flanando pelas ruas
e ainda, amigos num café da esquina

sim, há o mundo
mas não me tirem a canção
sua poesia e seus acordes
essa filha da palavra anciã
e da natureza transfigurada

sim, tudo existe e tudo é importante
mas sem a canção, quem iria chorar e sorrir?
e mesmo que chorasse e risse,
que cadência e voz teriam?

Outono

Na Rua Jacinto Gomes, toca  o bandoneón das 12hs, no 2º andar do prédio Atlântico. Percebe-se entre os galhos do plátano desbotado, uma reunião de músicos celebrando o sábado com goles de café e conhaque.  O vento gélido e úmido entra pela cozinha, balançando as ervas em um pequeno vaso na janela de uma velha casa da Rua Olavo Bilac. O velho alfaiate do bairro Santana, ao fundo da sala, ouve Stan Getz na radio universitária, recostado num longo sofá de couro marrom, os olhos fechados e os óculos e um pequeno bilhete na mão esquerda. Nos bancos da ante-sala do Teatro Renascença, a faxineira com o queixo apoiado sobre as mãos (e as mãos apoiadas na vassoura), espera ansiosa as 13hs para voltar à casa, onde lhe esperam para o almoço. Na esquina das ruas Castro Alves e Felipe Camarão, a menina toma o rosto dele com as duas mãos e beija-o longamente, com lábios de partida. Em um velho hotel rosa na rua da Praia, outra menina espera ofegante, atenta a relógio, vê o semblante dela surgir lentamente pelo vidro do elevador: primeiro o cabelo curto em desalinho,  a pinta no canto direito da boca, o batom vermelho, depois o lenço negro caído sobre os ombros, o vestido cinza e os joelhos escondidos sobre a meia-calça. A porta se abre e com um sorriso de amor no rosto, extende a mão e, balbuciando, quase sem voz, diz: – vem. Ainda embriagado da noite anterior,  o homem de meia-idade procura as moedas para pagar ao atendente. Junto com as moedas, a pequena foto da sua filha. Toma seu café com pão, olhando a foto entre as moedas sob o velho balcão de vidro riscado e fórmica branca. Olha a rua, com olhos de neblina, considera as folhas secas que o vento vai levando pela rua, e enxuga uma lágrima com o guardanapo nas mãos trêmulas, à espera do próximo ônibus ao bairro Medianeira. um garoto divide o mate com o livreiro de um sebo da rua Riachuelo. Conversam sobre o Clube da Esquina, os discos de Piazzola e um pequeno livro de bolso de Joyce. Hoje o outono está em toda parte.

o arco do tempo

tenho 29 anos e cada vez mais dúvidas
as certezas foram tomando tom sépia
e hoje habitam a gaveta de baixo,
sobre os cadernos de campo
e as velhas contas não pagas.

hoje nada me emociona tanto
que o prazer dos cinco acordes entre amigos
tomar meu café no final da tarde
e quando cai o sol
me encantar com as janelas do bom fim

tenho 29 anos, pois, e não temo as certezas
quero ser apenas o poeta das ruas com jacarandás
quero cantar o velho, a criança e o cachorro
e desvendando cada antiga casa
achar um novo lar
palmilhando cada pedra coberta de neblina
e percorrer os passos dos que já se foram.

estou pensando em renovar os homens
usando bicicletas.

Para Chan Marshall e sua legião (reditado)

a mão solta no ar, ao alto, buscando as gotas frescas da chuva, no início do outono. a umidade, o ar esfriando, a superfície dos olhos refratando como cristais as pequenas gotas da garoa. agora a cidade começa sua mutação, deixando, ignota, os gritos mudos de um carnaval que não trouxe alegrias.

alguém pisa sobre um fruto de jacarandá e eis o bom fim: mancha de vinho no parapeito da janela, cheiro de pão na velha casa em que entra um velho e seu chapéu, avião cruzando o céu, um mendigo sobre o viaduto da vasco da gama e o olhar umidecido da adolescente que ajoelhada olha para o céu, enquanto acorrenta sua bicicleta. arruma o lenço xadrez que lhe protege o pescoço, limpa a lente do óculos gotejada de chuva na velha camiseta, e derrepente o céu de outono está nos seus olhos. deixem-na com as lágrimas, ali, na esquina do seu bairro, celebrando a chuva, imitando a própria chuva, essa maldita chuva gelada tão odiada pela ideologia tropical. deixem-na ser feliz, afinal o verão se foi. deixem-na passar esta tarde no café, sentindo fundo o amargo do café, sentindo o fundo amargo das mulheres, todas elas que deram sua vida por outras. deixem-na se o seu olhar é melancólico, não julga e não quer jogar. a mão solta no ar, que segura um cigarro ou um celular, que vira as páginas do livro, que escreve ansiosa sobre as páginas amareladas do caderno floreado (respeitem sua catarse), que desarruma o cabelo, que empunha o giz, que segura o filho, que segura o rosto, esse rosto tão preocupado das mil coisas. deixem-na, ela e seu café, ali, na segunda-feira ignota, liberem-na da obrigação da sensualidade, liberem-na do contrato matrimonial, liberem-na da ditadura da beleza, da alegria radiante e dos cadernos de cosméticos. ela que é uma e que é várias.

deixem-na estar ali, somente: mas não só hoje. nunca somente hoje.

cruzo a cidade
e uma canção me atravessa
enquanto transitam os transeuntes

momento sublime que é
achar quietude
em meio às sirenes

na hora dos corvos
sob os olhares indiferentes
o meu também se perde na paisagem

e nem lembro o porquê dei-me conta
que meu peito latia
se foi as mãos do artesão
ou o decote da estudante
se foi o verso de tatit
se qualquer outro transeunte
só sei que lembrei da palavra vida
lembrei que tenho meus amores
e fui pleno por um instante

DE FAVOR (Luiz Tatit)

Fui viver de favor
Nesse seu coração
Me alojei num lugar
Que é talvez um porão
Não tem luz não tem cor
Mas tem ar do pulmão

Fui viver em você
Nesse lar da paixão
Mesmo assim no fundão
Quando o amor não vem não
Posso bem cultivar
Minha doce ilusão

Se você tem palpitação
Eu quase entro em convulsão
Mas percebendo como são
Os seus ruídos
Que chegam sem parar
Aos meus ouvidos
Eu tento imaginar
Que é um cupido
Que vem no sangue bom
E que uma flecha foi lançada
Bem na minha direção

Embora de favor
Morar num coração
É íntimo demais
E o ritmo que faz
De cada batimento
Promessa do momento
É ótimo sentir
Poético ouvir
O som que vem do fundo
Do músculo que é um dos
Últimos locais
De sonho dos casais
Embora no porão
Morar num coração
Refaz

Fonte: http://www.luiztatit.com.br/

esta noite me entrego à poesia
filha dos ventos
senhora das palavras
guardiã dos sonhos
que vem lavrando o solo
para que nasçam canções

esta noite me entrego às luzes
dessas janelas amareladas
dos ruídos do vinil
das páginas desbotadas
das rendas dos amantes
e o rubro que refrata o vinho
da taça que está ao chão
onde os corpos de diluem

esta noite quero o silêncio desaforado
e três estrelas no céu
e badalar o vento de um campanário
pra lembrar de Madrid, Buenos Aires, Rosário
pra me sentir na rambla de Montevidéu
ou nascer na noite de Satolep
e me perder entre o gole de mate
e um borrão no papel