- na verdade, eu me sinto um incapaz. sou tipo a metade do que deveria ser. vejo algumas pessoas, completamente focadas no que lhes apraz, admiro sua perseverança ou bom berço, me contento com seus versos ou casa nova. mas perdão, não consigo ser isso. estou enredado na engrenagem do mundo e nela parece não haver espaço para mais uma. a única hora que dou-me conta de que eu sou eu é quando vejo meu rosto refletido no vidro do coletivo, ou na tela do computador quando ela está preta. por alguns segundos me olho nos olhos, vejo que sou eu, que estou vivo, que eu não sou todos esses objetos ao meu redor, e que mesmo com algum lamento, conseguiria viver tranquilamente sem eles; ao mesmo tempo, ajo como se cada coisa que existe me é indispensável. não sem algum recalque, lamento pelos artistas que fazem o que eu gostaria de ter feito. eles roubaram minhas idéias antes mesmo de eu tê-las. me incomoda o bando da vanguarda: é como se eu fosse um velho desde sempre. meu dia começa quando acordo, mas às vezes não sei por onde começar. o que me prometi não cumpri. por outro lado, engraçado, ando sempre correndo, como se tudo fosse mais importante do que caminhar lento e apreciar os rostos que passam, cuspir num canteiro, amassar nos dedos folhas de pitangueira e tomar uma xícara de café. me lembro de Quebec sem ter estado lá. sinto falta das escadas de um prédio do Boulevard Saint Germain que não subi. lamento ter deixado a velha casa do Rio Branco em que nunca morei. estranha sensação pensar em um tempo que não foi, lamentar um porvir que está num passado inexistente. acho que é essa eterna mania humana de colocar a atenção em outro lugar que não o presente. gera frustração isso, meu amigo. é muito frustrante quando você não sabe dar nome à algo. como eu poderia chamar algo que já passou sem ter sido? não é uma conclusão muito confortável. pois bem, meu caro, é isso que eu tinha para lhe falar. não repare meu relativo desencanto. quando tiver a minha idade, verá que a vida que você vende pra si mesmo é tão impossível quanto aquela esquina. você pode olhar o tempo inteiro para ela, durante dias e dias, sob vários sóis e temperaturas, em várias estações. sempre a mesma esquina. cada dia ela muda em você e quanto mais na sua memória, mais impossível ela se torna. e quando você se der conta de que a experiência é sempre incompleta, nada poderá ser melhor do que terminar esse café, mastigar os grãos que ficam no fundo e ver a noite cair pelas calçadas. aliás, para hoje minhas expectativas não ultrapassam advinhar sobre que luz refletida no rosto me esperam os lá de casa.
“como você classifica seu estilo?” pergunta 5, questionário sobre moda e comportamento. amostra aleatória. padaria porto alegre, av. independência. 1995.
Julho 7, 2011 por lucaz
que linda narrativa! e que estimulante é saber como teu presente é criativamente construído!