sou a caricatura perfeita das minhas desventuras. colecionador de troféus que não quis – e que não me importam. eis o que sou: um pregador tresloucado que não convence nem a si de suas próprias verdades. parto porque será necessário partir. mas parto também porque minha sina é viver onde não estou. fugitivo dos meus desejos. escravo da minha classe, servo da história que não escrevi, deixei minha pilha de sonhos em duas pastas verdes sob o armário e nos recantos cerebrais que mais me temorizam, silenciei todos os acordes, desliguei a luz sobre a escrivaninha: é o que penso cada vez que tomo o ônibus para mais um dia de mergulho no universo das cifras e dos números que enriquecem a outrem. eis o que sou: um sonho opaco e ignoto.