a mão solta no ar, ao alto, buscando as gotas frescas da chuva, no início do outono. a umidade, o ar esfriando, a superfície dos olhos refratando como cristais as pequenas gotas da garoa. agora a cidade começa sua mutação, deixando, ignota, os gritos mudos de um carnaval que não trouxe alegrias.
alguém pisa sobre um fruto de jacarandá e eis o bom fim: mancha de vinho no parapeito da janela, cheiro de pão na velha casa em que entra um velho e seu chapéu, avião cruzando o céu, um mendigo sobre o viaduto da vasco da gama e o olhar umidecido da adolescente que ajoelhada olha para o céu, enquanto acorrenta sua bicicleta. arruma o lenço xadrez que lhe protege o pescoço, limpa a lente do óculos gotejada de chuva na velha camiseta, e derrepente o céu de outono está nos seus olhos. deixem-na com as lágrimas, ali, na esquina do seu bairro, celebrando a chuva, imitando a própria chuva, essa maldita chuva gelada tão odiada pela ideologia tropical. deixem-na ser feliz, afinal o verão se foi. deixem-na passar esta tarde no café, sentindo fundo o amargo do café, sentindo o fundo amargo das mulheres, todas elas que deram sua vida por outras. deixem-na se o seu olhar é melancólico, não julga e não quer jogar. a mão solta no ar, que segura um cigarro ou um celular, que vira as páginas do livro, que escreve ansiosa sobre as páginas amareladas do caderno floreado (respeitem sua catarse), que desarruma o cabelo, que empunha o giz, que segura o filho, que segura o rosto, esse rosto tão preocupado das mil coisas. deixem-na, ela e seu café, ali, na segunda-feira ignota, liberem-na da obrigação da sensualidade, liberem-na do contrato matrimonial, liberem-na da ditadura da beleza, da alegria radiante e dos cadernos de cosméticos. ela que é uma e que é várias.
deixem-na estar ali, somente: mas não só hoje. nunca somente hoje.