Uma sombra pode vir do céu,
imponderável como as nuvens
e cair no dia feito um véu
ou a tampa de um ataúde.
E nada impede que se afundem
neo-Atlântidas e arranha-céus
ou que nossas cidades-luzes
submersas se tornem mausoléus.
Em arquipélagos, os ilhéus
pisarão ruínas ao lume
do mar, maravilhados e incréus
e devotados a insolúveis
questões, espuma, areia, fúteis
e ardentes caminhadas ao léu.
ele é meio médio
às vezes anti-artístico
sapatos como de qualquer pessoa
pacato estudante
qualquer transeunte
sem nada que se note na multidão
nao anda de terno em pleno verão
nem tem frases de efeito
não é magro nem filho de jornalista
mas então: porque diabos pensa em ser artista?
não transou drogas na juventude
sabe uns trinta e seis acordes
lê drummond e galeano
ouve milton e catano
e o velho rock sulamericano
não tem capital cultural pra ser escritor
nem capital social pra virar crítico de arte
num povo bem provinciano é morador
onde a arte está confinada nas galerias
porque então pensa em ser cantor?
porque insiste em publicar poesias?
porque essa mania de fazer
do cotidiano
a matéria d’arte?
porque é que se vai?
porque é que tem quer ser asssim?
transmutando-se em céu,
como é renascer?
quê tem do outro lado?
lá se guiam por mapas?
tem gente como você,
assim, tão engraçadas?
manda um recado de lá
pra gente ficar mais calmos.
e se você for nos esperar
não se esqueça
da bússola e das paisagens
e a gente vai ter mil horas pra conversar.
saber que o infinito é bonito só se você olhar
se a sorte for embora ela já volta se sabe esperar
só quando a gente voa que o mundo muda de lugar
sem lixo na cabeça fica bonito imaginar!