Escrever quando há muito o que escrever (em outro lado, em outra esfera). Escrever, vocês sabem bem o que é isso. Escrever sob o céu que logo trará a lua, escrever ao som de Piers Faccini, escrever ao sabor da água gelada. Escrever por nada, por ninguém, nem por mim, mas para dizer, para considerar, para oferecer algumas palavras ao mundo, aos bits; mas que eles desçam com o carmim sobre a Redenção, cresçam com a claridade do satélite, se espalhem nos rostos dos que, no café, esperam seu amor. Escrever, ainda, sem compromisso, não como máquina, mas imaturamente revoltado pelo tanto a escrever daqui por diante. Escrever para achar a poesia no ato de escrever, para se achar no ato do próprio escrever, na sua própria poesia. Escrever, quando as cidades ardem, quando os na parada sofrem, quando na lágrima se sobrevive, quando a dor for demais, quando o riso for demais, quando do silêncio nascer as palavras, quando as paisagens invadirem o corpo, quando for necessário construir e construir-se.
Escrever-se.
“that leads to your door will never desapear…”
depois, foi um sem número de lágrimas. considerou cada pedaço do que havia sido um lar, caminhou pelo apartamento tocando as parades, as portas; e dormiu novamente no sofá quando já era quase outra manhã. num impulso ele levantou ao lado sofá, lavou o rosto em frente ao espelho, que refletia também um quarto vazio. pegou a última caixa e deixou o último vinil e o tocador de discos tocando no chão. se tudo acaba com o Let it Be, eles vão ser os últimos a saírem daqui, pensou olhando o rosto dos quatro rapazes de Liverpool na capa. abriu a porta e ao sair viu ela sentada ao lado da porta com os cotovelos sob os joelhos. passara a noite ali, sem coragem de entrar. logo se levantou; procurou em seu rosto alguma coisa do que havia tanto amado, os traços do queixo, o jeito da barba, os primeiros fios brancos do cabelo. seu lábio tremia ao vê-lo, um medo como quando se conheceram. “quer entrar pra pegar algo? já estou descendo”, disse. ela não falava. pegou na gola do seu casaco, subindo em cima dos seus tênis para ficarem da mesma altura e lhe abraçou. chorou o que pôde, chorou por o que lembrou de bom, chorou porque não acreditava que tudo pudesse acabar. ele não sabia o que fazer, o que dizer, mas a levou para dentro. ficaram ao lado do sofá, ela deitada no seu colo, ouvindo o disco pela última vez juntos; centenas de viagens, milhares de orgasmos, um punhado de sonhos desfeitos e duas vidas que não se enxergam vivendo sozinhas. depois levaram a última caixa até o taxi que o levou para a casa do irmão. ela ficou ainda alguns minutos sentada no velho carro em frente ao prédio. deixaram ligado o abajour e o toca-discos repetindo as músicas do Lado B, até que alguém entre novamente no apartamento e tenha coragem de desligar o abajour que os iluminou por dez anos e silenciar o melhor disco de todos os tempos, que os embalou desde o momento em que se conheceram até o dia em que se despediram. que alguém tenha coragem de desligá-los. eles não tiveram.
uma gota de café no meu papel
manchando o poema em cima do ’sim’
eu respondi, mas o café borrou
você pode até duvidar
mas naquela mancha tinha
um sim.
Uma onda pode vir do céu,
imponderável como as nuvens
e cair no dia feito um véu
ou a tampa de um ataúde.
E nada impede que se afundem
neo-Atlântidas e arranha-céus
ou que nossas cidades-luzes
submersas se tornem mausoléus.
Em arquipélagos, os ilhéus
pisarão ruínas ao lume
do mar, maravilhados e incréus
e devotados a insolúveis
questões, espuma, areia, fúteis
e ardentes caminhadas ao léu.
matéria estranha essa
matéria de pulso etéreo
matéria de vida de quem nao duvida
que pode ser real
fazer o pulso da vida
entrar em uma cadência
no ritmo e na frequência
que dê um sentido à letra
fazendo um andor da sua própria inspiração
no passo cotidiano
na luta do ser humano
a humana luxúria de viver
na trajetória de sinais
unindo as dimensões do sentir
e luzir
constelações.
vertical:
mergulhei sem ver altura
depois de afundar a nau.
radical:
rasguei todas minhas vestes
e joguei-as no perau.
desigual
é a experiência humana
cada um, cada seu corpo
cada vida abissal
irreal
essa estranha e profana
verve de negar o templo -
casa de todo animal.
ele é meio médio
às vezes anti-artístico
sapatos como de qualquer pessoa
pacato estudante
qualquer transeunte
sem nada que se note na multidão
nao anda de terno em pleno verão
nem tem frases de efeito
não é magro nem filho de jornalista
mas então: porque diabos pensa em ser artista?
não transou drogas na juventude
sabe uns trinta e seis acordes
lê drummond e galeano
ouve milton e caetano
e o velho rock sulamericano
não tem capital cultural pra ser escritor
nem capital social pra virar crítico de arte
num povo bem provinciano é morador
onde a arte está confinada nas galerias
porque então pensa em ser cantor?
porque insiste em publicar poesias?
porque essa mania de fazer
do cotidiano
a matéria d’arte?
olha o menino sumindo, sumindo, sumindo
pela sala de estar da casa dela
e a parca luz se esvaindo, caindo
na prata luz do corpo dela
olha o amor que crescendo vai sendo
e desaparecendo aos olhos do voyeur
olha que momento lindo, vendo acontecer
mais um novo amor pela janela
que será que vai
que vai acontecer
com os amantes que o peso do mundo perder?
será que vai ser a salvação,
cada qual feliz e seu quinhão?
- haverá de ser leve!
haverá de ser leve!
o amor é um tapa na cara do mal e sua legião!
(a leandro martins, in memorian)
porque é que se vai?
porque é que tem quer ser asssim?
transmutando-se em céu,
como é renascer?
quê tem do outro lado?
lá se guiam por mapas?
tem gente como você,
assim, tão engraçadas?
manda um recado de lá
pra gente ficar mais calmos.
e se você for nos esperar
não se esqueça
da bússola e das paisagens
e a gente vai ter mil horas pra conversar.