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Os Ilhéus (Antônio Cícero)

Uma sombra pode vir do céu,
imponderável como as nuvens
e cair no dia feito um véu
ou a tampa de um ataúde.
E nada impede que se afundem
neo-Atlântidas e arranha-céus
ou que nossas cidades-luzes
submersas se tornem mausoléus.
Em arquipélagos, os ilhéus
pisarão ruínas ao lume
do mar, maravilhados e incréus
e devotados a insolúveis
questões, espuma, areia, fúteis
e ardentes caminhadas ao léu.

fazer canção

matéria estranha essa
matéria de pulso etéreo
matéria de vida de quem nao duvida
que pode ser real

fazer o pulso da vida
entrar em uma cadência
no ritmo e na frequência
que dê um sentido à letra
fazendo um andor da sua própria inspiração

no passo cotidiano
na luta do ser humano
a humana luxúria de viver
na trajetória de sinais

unindo as dimensões do sentir
e luzir

constelações.

o corpo.

vertical:
mergulhei sem ver altura
depois de afundar a nau.

radical:
rasguei todas minhas vestes
e joguei-as no perau.

desigual
é a experiência humana
cada um, cada seu corpo
cada vida abissal

irreal
essa estranha e profana
verve de negar o templo -
casa de todo animal.

ele é meio médio
às vezes anti-artístico
sapatos como de qualquer pessoa
pacato estudante
qualquer transeunte

sem nada que se note na multidão
nao anda de terno em pleno verão
nem tem frases de efeito
não é magro nem filho de jornalista
mas então: porque diabos pensa em ser artista?

não transou drogas na juventude
sabe uns trinta e seis acordes
lê drummond e galeano
ouve milton e catano
e o velho rock sulamericano

não tem capital cultural pra ser escritor
nem capital social pra virar crítico de arte
num povo bem provinciano é morador
onde a arte está confinada nas galerias

porque então pensa em ser cantor?
porque insiste em publicar poesias?

porque essa mania de fazer
do cotidiano
a matéria d’arte?

contra o mal e sua legião

olha o menino sumindo, sumindo, sumindo
pela sala de estar da casa dela
e a parca luz se esvaindo, caindo
na prata luz do corpo dela

olha o amor que crescendo vai sendo
e desaparecendo aos olhos do voyeur
olha que momento lindo, vendo acontecer
mais um novo amor pela janela

que será que vai
que vai acontecer
com os amantes que o peso do mundo perder?

será que vai ser a salvação,
cada qual feliz e seu quinhão?

pois haverá de ser leve
haverá de ser leve
o amor é um tapa na cara do mal e sua legião!

amigo

(a leandro martins, in memorian)

porque é que se vai?
porque é que tem quer ser asssim?
transmutando-se em céu,
como é renascer?

quê tem do outro lado?
lá se guiam por mapas?
tem gente como você,
assim, tão engraçadas?

manda um recado de lá
pra gente ficar mais calmos.
e se você for nos esperar
não se esqueça
da bússola e das paisagens
e a gente vai ter mil horas pra conversar.

SEM LIXO NA CABEÇA

sem lixo na cabeça

saber que o infinito é bonito só se você olhar
se a sorte for embora ela já volta se sabe esperar
só quando a gente voa que o mundo muda de lugar
sem lixo na cabeça fica bonito imaginar!

- leo minax

piers faccini

“Só, caminho pelas ruas
Como quem repete um mantra
O vento encharca os olhos
O frio me traz alegria”

(v. ramil)

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