sim, há a geografia
sim, há a natureza
- ela é bela, e eu a amo -
sim, há o país e o trabalho inevitável
mas a canção é a mágica
é o que habita debaixo dos pés
é a tempestade tácita
trazendo o estrondo das marés
e um assovio flanando pelas ruas
e ainda, amigos num café da esquina
sim, há o mundo
mas não me tirem a canção
sua poesia e seus acordes
essa filha da palavra anciã
e da natureza transfigurada
sim, tudo existe e tudo é importante
mas sem a canção, quem iria chorar e sorrir?
e mesmo que chorasse e risse,
que ritmo haveria?
- na verdade, eu me sinto um incapaz. sou tipo a metade do que deveria ser. vejo algumas pessoas, completamente focadas no que lhes apraz, admiro sua perseverança ou bom berço, me contento com seus versos ou casa nova. mas perdão, não consigo ser isso. estou enredado na engrenagem do mundo e nela parece não haver espaço para mais uma. a única hora que dou-me conta de que eu sou eu é quando vejo meu rosto refletido no vidro do coletivo, ou na tela do computador quando ela está preta. por alguns segundos me olho nos olhos, vejo que sou eu, que estou vivo, que eu não sou todos esses objetos ao meu redor, e que mesmo com algum lamento, conseguiria viver tranquilamente sem eles; ao mesmo tempo, ajo como se cada coisa que existe me é indispensável. não sem algum recalque, lamento pelos artistas que fazem o que eu gostaria de ter feito. eles roubaram minhas idéias antes mesmo de eu tê-las. me incomoda o bando da vanguarda: é como se eu fosse um velho desde sempre. meu dia começa quando acordo, mas às vezes não sei por onde começar. o que me prometi não cumpri. por outro lado, engraçado, ando sempre correndo, como se tudo fosse mais importante do que caminhar lento e apreciar os rostos que passam, cuspir num canteiro, amassar nos dedos folhas de pitangueira e tomar uma xícara de café. me lembro de Quebec sem ter estado lá. sinto falta das escadas de um prédio do Boulevard Saint Germain que não subi. lamento ter deixado a velha casa do Rio Branco em que nunca morei. estranha sensação pensar em um tempo que não foi, lamentar um porvir que está num passado inexistente. acho que é essa eterna mania humana de colocar a atenção em outro lugar que não o presente. gera frustração isso, meu amigo. é muito frustrante quando você não sabe dar nome à algo. como eu poderia chamar algo que já passou sem ter sido? não é uma conclusão muito confortável. pois bem, meu caro, é isso que eu tinha para lhe falar. não repare meu relativo desencanto. quando tiver a minha idade, verá que a vida que você vende pra si mesmo é tão impossível quanto aquela esquina. você pode olhar o tempo inteiro para ela, durante dias e dias, sob vários sóis e temperaturas, em várias estações. sempre a mesma esquina. cada dia ela muda em você e quanto mais na sua memória, mais impossível ela se torna. e quando você se der conta de que a experiência é sempre incompleta, nada poderá ser melhor do que terminar esse café, mastigar os grãos que ficam no fundo e ver a noite cair pelas calçadas. aliás, para hoje minhas expectativas não ultrapassam advinhar sobre que luz refletida no rosto me esperam os lá de casa.
Na Rua Jacinto Gomes, toca o bandoneón das 12hs, no 2º andar do prédio Atlântico. Percebe-se entre os galhos do plátano desbotado, uma reunião de músicos celebrando o sábado com goles de café e conhaque. O vento gélido e úmido entra pela cozinha, balançando as ervas em um pequeno vaso na janela de uma velha casa da Rua Olavo Bilac. O velho alfaiate do bairro Santana, ao fundo da sala, ouve Stan Getz na radio universitária, recostado num longo sofá de couro marrom, os olhos fechados e os óculos e um pequeno bilhete na mão esquerda. Nos bancos da ante-sala do Teatro Renascença, a faxineira com o queixo apoiado sobre as mãos (e as mãos apoiadas na vassoura), espera ansiosa as 13hs para voltar à casa, onde lhe esperam para o almoço. Na esquina das ruas Castro Alves e Felipe Camarão, a menina toma o rosto dele com as duas mãos e beija-o longamente, com lábios de partida. Em um velho hotel rosa na rua da Praia, outra menina espera ofegante, atenta a relógio, vê o semblante dela surgir lentamente pelo vidro do elevador: primeiro o cabelo curto em desalinho, a pinta no canto direito da boca, o batom vermelho, depois o lenço negro caído sobre os ombros, o vestido cinza e os joelhos escondidos sobre a meia-calça. A porta se abre e com um sorriso de amor no rosto, extende a mão e, balbuciando, quase sem voz, diz: – vem. Ainda embriagado da noite anterior, o homem de meia-idade procura as moedas para pagar ao atendente. Junto com as moedas, a pequena foto da sua filha. Toma seu café com pão, olhando a foto entre as moedas sob o velho balcão de vidro riscado e fórmica branca. Olha a rua, com olhos de neblina, considera as folhas secas que o vento vai levando pela rua, e enxuga uma lágrima com o guardanapo nas mãos trêmulas, à espera do próximo ônibus ao bairro Medianeira. um garoto divide o mate com o livreiro de um sebo da rua Riachuelo. Conversam sobre o Clube da Esquina, os discos de Piazzola e um pequeno livro de bolso de Joyce. Hoje o outono está em toda parte.
sou a caricatura perfeita das minhas desventuras. colecionador de troféus que não quis – e que não me importam. eis o que sou: um pregador tresloucado que não convence nem a si de suas próprias verdades. parto porque será necessário partir. mas parto também porque minha sina é viver onde não estou. fugitivo dos meus desejos. escravo da minha classe, servo da história que não escrevi, deixei minha pilha de sonhos em duas pastas verdes sob o armário e nos recantos cerebrais que mais me temorizam, silenciei todos os acordes, desliguei a luz sobre a escrivaninha: é o que penso cada vez que tomo o ônibus para mais um dia de mergulho no universo das cifras e dos números que enriquecem a outrem. eis o que sou: um sonho opaco e ignoto.
tenho 29 anos e cada vez mais dúvidas
as certezas foram tomando tom sépia
e hoje habitam a gaveta de baixo,
sobre os cadernos de campo
e as velhas contas não pagas.
hoje nada me emociona tanto
que o prazer dos cinco acordes entre amigos
tomar meu café no final da tarde
e quando cai o sol
me encantar com as janelas do bom fim
tenho 29 anos, pois, e não temo as certezas
quero ser apenas o poeta das ruas com jacarandás
quero cantar o velho, a criança e o cachorro
e desvendando cada antiga casa
achar um novo lar
palmilhando cada pedra coberta de neblina
e percorrer os passos dos que já se foram.
estou pensando em renovar os homens
usando bicicletas.
a mão solta no ar, ao alto, buscando as gotas frescas da chuva, no início do outono. a umidade, o ar esfriando, a superfície dos olhos refratando como cristais as pequenas gotas da garoa. agora a cidade começa sua mutação, deixando, ignota, os gritos mudos de um carnaval que não trouxe alegrias.
alguém pisa sobre um fruto de jacarandá e eis o bom fim: mancha de vinho no parapeito da janela, cheiro de pão na velha casa em que entra um velho e seu chapéu, avião cruzando o céu, um mendigo sobre o viaduto da vasco da gama e o olhar umidecido da adolescente que ajoelhada olha para o céu, enquanto acorrenta sua bicicleta. arruma o lenço xadrez que lhe protege o pescoço, limpa a lente do óculos gotejada de chuva na velha camiseta, e derrepente o céu de outono está nos seus olhos. deixem-na com as lágrimas, ali, na esquina do seu bairro, celebrando a chuva, imitando a própria chuva, essa maldita chuva gelada tão odiada pela ideologia tropical. deixem-na ser feliz, afinal o verão se foi. deixem-na passar esta tarde no café, sentindo fundo o amargo do café, sentindo o fundo amargo das mulheres, todas elas que deram sua vida por outras. deixem-na se o seu olhar é melancólico, não julga e não quer jogar. a mão solta no ar, que segura um cigarro ou um celular, que vira as páginas do livro, que escreve ansiosa sobre as páginas amareladas do caderno floreado (respeitem sua catarse), que desarruma o cabelo, que empunha o giz, que segura o filho, que segura o rosto, esse rosto tão preocupado das mil coisas. deixem-na, ela e seu café, ali, na segunda-feira ignota, liberem-na da obrigação da sensualidade, liberem-na do contrato matrimonial, liberem-na da ditadura da beleza, da alegria radiante e dos cadernos de cosméticos. ela que é uma e que é várias.
deixem-na estar ali, somente: mas não só hoje. nunca somente hoje.
cruzo a cidade
e uma canção me atravessa
enquanto transitam os transeuntes
momento sublime que é
achar quietude
em meio às sirenes
na hora dos corvos
sob os olhares indiferentes
o meu também se perde na paisagem
e nem lembro o porquê dei-me conta
que meu peito latia
se foi as mãos do artesão
ou o decote da estudante
se foi o verso de tatit
se qualquer outro transeunte
só sei que lembrei da palavra vida
lembrei que tenho meus amores
e fui pleno por um instante
Fui viver de favor
Nesse seu coração
Me alojei num lugar
Que é talvez um porão
Não tem luz não tem cor
Mas tem ar do pulmão
Fui viver em você
Nesse lar da paixão
Mesmo assim no fundão
Quando o amor não vem não
Posso bem cultivar
Minha doce ilusão
Se você tem palpitação
Eu quase entro em convulsão
Mas percebendo como são
Os seus ruídos
Que chegam sem parar
Aos meus ouvidos
Eu tento imaginar
Que é um cupido
Que vem no sangue bom
E que uma flecha foi lançada
Bem na minha direção
Embora de favor
Morar num coração
É íntimo demais
E o ritmo que faz
De cada batimento
Promessa do momento
É ótimo sentir
Poético ouvir
O som que vem do fundo
Do músculo que é um dos
Últimos locais
De sonho dos casais
Embora no porão
Morar num coração
Refaz
esta noite me entrego à poesia
filha dos ventos
senhora das palavras
guardiã dos sonhos
que vem lavrando o solo
para que nasçam canções
esta noite me entrego às luzes
dessas janelas amareladas
dos ruídos do vinil
das páginas desbotadas
das rendas dos amantes
e o rubro que refrata o vinho
da taça que está ao chão
onde os corpos de diluem
esta noite quero o silêncio desaforado
e três estrelas no céu
e badalar o vento de um campanário
pra lembrar de Madrid, Buenos Aires, Rosário
pra me sentir na rambla de Montevidéu
ou nascer na noite de Satolep
e me perder entre o gole de mate
e um borrão no papel
me ocorre de assalto, enquanto tento estudar e uma multidão grita no meu prédio como legítimos exemplares do que pode ser a verdadeira bestialidade, que não há nada mais vil e abjeto que o fanatismo futebolístico.
enquanto corre o debate político em outro canal, e milhares de fiéis fanáticos do esporte que mais tira dinheiro do povo gritam como poucos bárbaros já devem ter feito, vejo a minha volta dezenas de livros, e algumas páginas por escrever.